O que acontece quando você viaja pelo Brasil com pouca grana
Por Maria Thereza M.A., em 19/01/2012 às 12:39. Arquivado em: Viagens. Com as tags hippie, viajante.
Fui para o litoral catarinense nas férias com a família. Na ida, almoçamos em uma daquelas paradas grandes de beira de estrada, com restaurante, lanchonete, lojas etc. Estávamos entrando no carro para ir embora quando meu pai viu do outro lado do estacionamento um casal do mais típico estereótipo de viajantes. Tinham bicicletas com alforjes enormes, botas de trekking, roupas surradas e pareciam não ver um chuveiro desde que saíram de casa. Estavam conversando com um grupo de pessoas e todos olhavam alguma coisa em um mapa.
Como eu achei aquilo lindo e fiquei olhando, eles logo se aproximaram do nosso grupo também. Estavam vendendo pulseirinha pra bancar a viagem, com toda a cara de hippie de praça. O homem chegou contando uma história triste, que eles estavam viajando de bicicleta pela estrada, muito perigoso, e precisavam dessa ajuda das pulseirinhas pra se bancar. Disse que tinham vindo da França e chegou falando aquele portunhol que só quem não fala nem português nem espanhol consegue criar e se comunicar com a América Latina inteira. Disse que chegaram de avião em Buenos Aires e estavam percorrendo a AL de bike até Salvador.
Esse tipo de coisa me interessa muitíssimo porque acho que quem tem colhões pra fazer uma viagem dessa, especialmente com pouca ou nenhuma grana, não pode ter outro título além de ser uma pessoa foda. E claro que o meu travel monster também bate palma. Então não consegui deixar de puxar conversa e saber tudo sobre a viagem deles. E aí veio a parte mais interessante.
Quando eu perguntei o que eles estavam achando do país, a mulher fez cara feia e disse que as pessoas não eram muito receptivas aqui. Segundo ela, na Argentina eles não tiveram problema nenhum em se aproximar das pessoas para conversar, e não se sentiram discriminados nenhuma vez, mas sentia que no Brasil as pessoas os viam como mendigos mesmo e nunca queriam conversar. Eu disse a ela que talvez fosse porque eles ainda estavam no sul, e aqui as pessoas são mais fechadas mesmo, e que no nordeste as pessoas iam ser mais abertas. Também expliquei que aqui todo mundo tem medo de qualquer pessoa estranha se aproximando, porque qualquer um pode ser um assaltante e as pessoas simplesmente não têm como saber, então sua única defesa é fechar a cara e se afastar bem rápido. Não tive coragem de dizer que tomar banho todo dia talvez pudesse ajudar, porque né, quem sou eu?
Mas acho que o maior fator pras pessoas estranharem a presença deles é o fato de nós simplesmente não termos essa cultura do viajante roots. Viajante e aventureiro aqui é quem vai pra Bariloche de caminhonete 4×4 importada. É muito raro encontrar alguém fazendo uma aventura dessa com pouca grana, então as pessoas se fecham mesmo. Pense. Quantas vezes você viu uma cena dessas? Quantas vezes você viu gente andando na rua com mochilas enormes? Gente passando a noite em aeroporto (caos aéreo não conta) ou rodoviária? Que eu me lembre essa foi a primeira vez que vi isso. É estranho para nós.
Eu mesma estou indo acampar na Ilha do Mel no Carnaval e, em vez de encarar isso como só uma opção diferente de estilo de viagem, já estou me enxergando passando 5 dias direto de biquini e saião indiano por cima e voltando com dreads e sandália Jesus Cristo, com planos de voltar e viver da venda de brinco de coco na praia.
Porque afinal a estratégia de sobrevivência dos meus amigos viajantes funcionou. Eu comprei uma pulseirinha.
3 comentários



Igor Faria
19/01/2012 às 12:49
MT, concordo com gênero, número e degrau. Acho que só no nordeste MESMO esse casal vai encontrar pessoas mais receptivas. Pelo menos aqui em MG, a receptividade seria a mesma que eles vem recebendo ai no Sul.
Vamos combinar de, quando te der a louca e o travel monster gritar “É HORA DO MOCHILÃO!”, vc me dá um toque? Animo fácil de seguir umas ideias dessas. :)
Beijos
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Jean
19/01/2012 às 13:58
Oi Tê, adorei o texto, e acho que essa coisa de “”travel monster “” já veio de nascença ( puxou o pai), mas você não falou que se comunicou com eles em um francês impecável, que até mereceu elogios da moça, que não acreditou que você não era francesa. Realmente foi muito legal o encontro.
Beijos.
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Voltar pro Brasil at Pictolírica
23/01/2012 às 20:48
[...] muito a leitura do texto porque isso é exatamente do que eu estava falando no post sobre os viajantes e essas diferenças culturais. Segundo, queria adicionar alguns comentários e [...]