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Voltar pro Brasil

Por Maria Thereza M.A., em 23/01/2012 às 20:35. Arquivado em: Viagens.

Li no blog Coisa Parecida um texto da Glenda Dimuro sobre por que é tão difícil voltar pro Brasil uma vez que você mora fora. Primeiro, recomendo muito a leitura do texto porque isso é exatamente do que eu estava falando no post sobre os viajantes e essas diferenças culturais. Segundo, queria adicionar alguns comentários e exemplos.

Temos uma tendência a reduzir a noção de cultura a coisas tangíveis como comer acarajé na Bahia, tirar os sapatos pra entrar em casa no Japão, e outros costumes em geral. Também tendemos a comparar fatores de qualidade de vida em diferentes países, como violência, escolaridade etc. Mas raramente paramos pra pensar nos valores e perspectivas que cada cultura traz, como fez a Glenda falando sobre a Espanha. O trecho que mais me chamou a atenção, devido à minha própria experiência, foi este:

Aprendi a ser tolerante, a respeitar mais as diferenças, a descobrir a diversidade de raças, culturas, estilos de vida e pensamento muito diferentes dos nossos, brasileiros, muitas vezes machistas, egoístas e hipócritas (como também já foi citado nos posts dos meus colegas de Brasil com Z). Aprendi que viver no mesmo edifício que o motorista do caminhão de lixo e comer no mesmo restaurante da faxineira da piscina é uma coisa absolutamente normal. Aprendi a respeitar famílias com dois pais, duas mães e até duas mães e um pai, a não falar mal de uma mulher escabelada na padaria, a não ficar horrorizada com um «modelito» fora do «normal». Aprendi que o normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo pessoal, sem precisar de aparências ou máscaras.

Meus melhores amigos na França eram também curitibanos, portanto temos base de comparação. Quando voltamos, passamos a discutir como era possível viver bem por lá ganhando menos da metade do salário mínimo francês, enquanto aqui vivemos na pinduca ganhando mais de quatro salários mínimos. Não quero aqui entrar em detalhes socioeconômicos, mas chegamos à conclusão de que era uma questão cultural.

Um exemplo de que gosto muito é uma noitada. Na França, nossas baladas básicas de toda semana geralmente corriam assim: cada um colocava uma roupa só um pouquinho melhor do que a que usou pra passar o dia; tomávamos algum vinho ou cerveja antes de sair; íamos pro bar de metrô; entrávamos no bar de graça; bebíamos pouco no bar pra economizar; voltávamos de metrô, se ainda estivesse cedo, ou de bicicleta ou a pé se o metrô já tivesse fechado. E não fazíamos nada disso só porque éramos estudantes pobres; quer dizer, éramos, mas todo mundo também fazia isso. Aqui isso não acontece, a começar pelo transporte. É possível, sim, ir para a balada de ônibus, mas é socialmente aceitável? Não. Aqui, quem não tem carro precisa mendigar caronas ou pagar um taxi, não importa se são 11 da noite ou 7 da tarde. Depois, estão ficando cada vez mais raros os lugares que não cobram entrada ou ao menos uma consumação. Sem contar as roupas, aqui você sai e vê todo mundo igual, meninos de polo e meninas de vestido bandage, e ai de você se aparecer de camiseta e tênis em balada que não seja alternativa. E na hora de ir embora? Voltar a pé é simplesmente impensável e bicicleta é considerada coisa de bicho grilo, você precisa pagar táxi se não tem carro nem carona. Com tudo isso somado, o valor médio de 5-10 euros que gastávamos lá por noite, aqui sobe para 30-50 reais.

E a questão do carro? Eu conhecia uma pessoa que tinha carro na França. Aqui, todos os meus amigos têm, sendo que aqui qualquer carro e sua manutenção custa no mínimo o dobro do que lá. Por que isso acontece? Porque as pessoas se sentem mais seguras? Acredito que não, acredito que também seja algo cultural. O brasileiro jamais vai trocar o carro pelo transporte público ou pela bicicleta, como ocorre na França; não porque o transporte público aqui seja muito pior ou menos seguro ou mais lotado do que lá, na hora do rush é tudo igual, mas sim porque ter carro é status. Porque todo moleque de 17 anos tá contando os dias pra tirar a carteira e ter seu veículo pra levar as menininhas pra passear. Não que haja algo errado com isso, afinal isso ocorre porque o moleque de 17 anos, assim como a esmagadora maioria da população, está com essa noção de aceitação social enraizada em si desde pequeno.

Meu objetivo não é advogar que os valores dos brasileiros são errados e os dos franceses são corretos, nem fazer pouco caso dos motivos (desigualdade, violência, educação etc.) que possam levar à criação desses valores. Todos eles são ideias pré-concebidas que vão sendo passadas de geração em geração ad eternum sem que as pessoas nem parem pra pensar sobre eles; são extremamente difíceis de mudar num nível coletivo e variam de acordo com cada cultura. Quando você mora fora e, enquanto indivíduo, se identifica mais com os valores de uma cultura estrangeira do que com os que você consumiu desde pequeno, aí realmente fica muito díficil voltar.

9 comentários

  1. Luma

    23/01/2012 às 21:27

    Concordo com o que você falou no seu post e com o trecho que você postou do outro post, mas lendo todo o post que você linkou, alguma coisa me incomoda e eu não sei bem o que é.
    Nunca morei fora, mas não precisei viver no exterior pra aprender tudo isso que está escrito aí. Na verdade acho que tem muito mais a ver com sair da zona de conforto e manter a mente aberta pra coisas novas. Porque não adianta nada passar 50 anos viajando por aí e não se abrir pra novas experiências. Ou só trocar pelo equivalente da sua vida no país de origem.
    E acho que nem precisa sair do país pra perceber essas coisas. Quantas coisas diferentes estão pertinho da gente e a gente ignora completamente? Tenho certeza que quem mora na zona sul e for conhecer uma comunidade na periferia vai voltar com outra cabeça. Da mesma forma alguém que more no sul/sudeste ir conhecer o norte/nordeste.
    Tudo isso que você falou que você fez na França, eu faço no Rio de Janeiro. Saio com os meus amigos, todo mundo usando chinelo+short+camiseta. Pegamos o ônibus/ metrô ou até vamos andando se for um lugar mais perto, vamos pra algum lugar comer alguma coisa, beber, conversar. Depois voltamos pra casa da mesma maneira que fomos, de madrugada mesmo. E eu sei que tenho essa liberdade de andar de madrugada pela rua com os meus amigos porque moro num lugar privilegiado (e queria que todo mundo tivesse esse privilégio).
    Enfim, não organizei bem meus pensamentos na cabeça e estou meio que escrevendo tudo que estou pensando agora hahaha

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    Danillo

    27/01/2012 às 19:37

    cara tudo isso eu fazia no Brasil também e é por isso que eu acho valido a oportunidade de intercâmbio ser aproveitada sempre, porque eu pensava como você e realmente só saindo do Brasil para perceber tudo isso ai que ela disse, eu nao vivi na Franca mas conheco, assim como quase toda Europa, morei na Alemanha por dois anos e agora estou na Suica e só de pensar em voltar para o Brasil me dá preguica,eu amo meu país mas tem coisas que nos fazem pensar muito. Quando vou ao Brasil visitar a familia espalhada por MUITOS estados eu gasto mais dinheiro com tudo desde de transporte até cafezinho do que um tour pela Europa, e tem muitas coisas que nao depende só do governo mas da propria populacao para ter mudancas, já cansei de ver reportagens na TV por aqui sobre a incrível subida econômica do Brasil e a falência da sociedade.

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  2. Maria Clara

    23/01/2012 às 22:18

    Não sabia que vc não queria voltar… Pensei que vtivesse sido de boa!

    Bom Tetê, concordo com a história de mais igualdade social e vida confortável mais tangível lá do que aqui, mas vamos com calma. Lá a gente só saía com roupas do dia a dia porque íamos no cosmo-bière-1-euro. Não lembro de ninguém que tenha conseguido entrar em certos lugares (Q Boat é o clássico), e algo me diz que é porque não estávamos arrumados o suficiente.

    Assim como a sua amiga, eu tb já fui à pé ou de ônibus pra festas. Concordo que é porque moro numa região “privilegiada”, mas lá em Lyon a gente não morava no Banlieue. Duvido que alguém da Villeurbane, pra não ir tão longe, saia sem carro.

    Nunca pesquisei profundamente sobre isso, mas na minha opinião a questão é que a “classe média-média” lá é infinitamente maior do que a classe “média-média” daqui. Lá a gente era classe média-média. Aqui, acho que estamos um pouco além disso, e acabamos comparando duas situações diferentes.

    Se lá a gente, em vez de estudar numa faculdade pública, tivesse ido pra alguma das míticas “Écoles de Commerce”, “École d’Ingenierie” etc, certamente teríamos conhecido outra realidade bem menos igualitária, nossas amiguinhas de classe não comprariam na H&M, não iriam no Cosmo e certamente não almoçariam no RestoU.

    Também tem uma questão mt importante: lá a gente estava de passagem. Todos os intercambistas que conheci aqui no Rio adoram a cidade, acham tudo linder, não querem mais voltar etc. Assim como eles, a gente não teve mt tempo (nem vontade, nem necessidade etc) de conhecer o lado ruim, mas tínhamos mta disposição e olhos bem abertos pras novidades legais que apareciam.

    Claro que as condições lá continuam sendo mais justas do que as daqui, eu não seria louca de dizer que não, mas acho que as pessoas têm um “romantismo” um pouco exagerado em relação a isso.

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    Maria Thereza M.A.

    23/01/2012 às 23:24

    na verdade não é que eu não quisesse voltar, mas é que essas coisas ainda me incomodam e eu entendo perfeitamente por que seria difícil querer voltar.

    você tocou numa questão bem importante de comparar situações diferentes. uma vez eu e a patrícia fomos numa festa de um pessoal de direito e éramos as únicas que não estávamos de salto haha mas a questão é que as únicas pessoas que se incomodaram com isso fomos nós mesmas, ninguém estava nem aí se estávamos de salto ou não, e é disso que eu sinto falta por aqui.

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  3. Vy

    24/01/2012 às 09:30

    Eu compreendo que a vida lá fora é melhor, mas não sei se concordo que é uma questão cultural só a gente abrir mão de certos luxos que temos no Brasil quando estamos fora. Existe sim mais igualdade social, mas será que se pudessemos mesmo, de ter dinheiro sobrando pra rasgar, abririamos mão de ter carro pra ir na balada lá fora? Acho que brasileiro tem a péssima mania de achar que aqui é tudo dificil e ruim, mas a bem da verdade não se esforça pra melhorar. Parece que só lá fora funciona, aqui nem tentam.

    Não que eu ache que essas pessoas tenham que voltar. Se gostam da onde estão, têm mais é que ficar, mas me irrita um pouco gente que só reclama que aqui é uma bosta mas também não move a bunda pra mudar, não de lugar, mas de atitude. Tipo, não gosta do transtio de São Paulo, do caos, da violência? Procura emprego em outro lugar. Fácil não é, mas se a vontade é tanta de mudar, o que te impede?

    Quem faz a diferença na própria vida (e que a gente admira) é tem tem bolas pra se arriscar e parar de reclamar.

    PS: não tô falando que não existam diferenças culturais que façam a diferença e que as pessoas não possam mudar sua maneira de pensar, só que eu acho que muita gente curte mesmo é reclamar.

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    Luma

    24/01/2012 às 20:55

    Esse ponto que você tocou é importante, Vy. Conheço gente que vai pro exterior, volta todo deslumbrado porque as ruas são limpinhas, mas joga lixo no chão aqui no Brasil. Quer dizer, né?

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    Vy

    26/01/2012 às 08:38

    Exatamente isso, Luma! Povo reclama de transito, mas tem carro. Reclama que shopping é cheio, mas todo findi tá lá dentro. Tem coisas que são inevitaveis, como pegar bus lotado e ser uma merda, mas tem outras que dá pra mudar se a gente realmente quiser. É tioo ser gordo e não parar de comer. Ou você aceita o fato que seu metabolismo não te ajuda, ou faz algo sobre isso, mas pára de reclamar e se fazer de vitima das calorias.

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    Danillo

    27/01/2012 às 19:56

    Conheci pessoas em Berlim que moravam lá a 13 anos e nao falava o alemao, nisso eu tenho que concordar, vai de cada cabeca, mas uma coisa é certa algumas dessas pessoas preferiam limpar chao de hotel em Berlim do que trabalhar em escritorios no Rio, nao me perguntem porque, mas eram o que falavam, bom é um assunto que se tem muito a discutir, o que nao pode ser esquecido é que o Brasil tem condicoes de melhorar a sociedade em todos os sentidos e nao muda, temos que falar sim que nosso transporte publico é uma droga e pagamos caro por ele, aqui na Suica você vê muita gente com um poder aquisitivo bem grande andando de ônibus, assim como em Berlim de metrô, e pessoas que tinham din din pra comprar um carro, nao compravam por preferir andar de metrô porque por incrível que pareca era mais pratico e facil e olha que o Brasileiro gasta muito mais com transporte publico do que o Europeu, eu nao entendo esse negocio das empresas de transporte publico no Brasil falarem que nao lucram muito e as empresas alemas lucram pra p… oferecendo um servico sem comparacoes ao do Brasil e cobrando menos.

    Misturei meus pensamentos, mas espero que tenham me entendido. beijos fui.

  4. Danillo

    27/01/2012 às 19:41

    gostei muito!!!!

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